TRAUMAS PSÍQUICOS DO POVO JUDEU

Vivi um pesadelo nos primeiros dias de março: “Estava em ruas desconhecidas, pareciam sem saídas com muitos palestinos e me senti muito angustiado, não sabia para onde fugir e o que fazer. Estava preso em labirintos, fiquei aterrorizado”. Logo lembrei do título do ensaio do escritor israeli David Grossman: “Israel está caindo em um abismo” do dia 02/03/2024. Descreve o quanto hoje Israel não é um lar seguro nem tampouco uma fortaleza segura. A sociedade israeli estava dividida antes da guerra entre os que defendiam a democracia e o governo que atacava o Poder Judiciário. A partir de sete de outubro, diante do trauma das mortes e sequestros, ocorreu uma mobilização da sociedade israeli diante dos ataques do Hamas. Saímos, escreve Grossman, de uma atitude autodestrutiva. Entretanto, fomos jogados mais uma vez numa condição judaica de uma nação perseguida e desprotegida. Nenhum lado é capaz de ver a tragédia do outro com um pingo de compaixão. Pedem no mundo a nossa extinção. Pergunta: que tipos de pessoas seremos quando essa guerra acabar? Para onde dirigiremos nossa culpa pelo que infligimos aos palestinos inocentes? E conclui: Há cansaço e desespero e é esse estado que pode levar a inimigos a se reconciliarem, é o que podemos esperar”.

“Não posso me dar o luxo de me desesperar”.

Grossman disse numa entrevista dada à revista Quatro Cinco Um: “Não posso me dar o luxo de me desesperar”. Entretanto, agora seu ensaio tem um título desesperado, mesmo que ao final sonha com a paz entre os inimigos. Fiquei com medo do abismo e daí o pesadelo que revela o traumático que nós judeus vivemos junto ao povo de Israel nos últimos meses, e mais traumático ainda foi para os palestinos de Gaza. Fui convidado para esse encontro poucos dias depois do dia sete de outubro de 2023, dia trágico para Israel, Gaza, Judeus e Palestinos. Daí me ocorreu o título da sichá, pois esse dia foi o de maior número de assassinato de judeus desde a Shoah.

O que é Trauma?

Trauma é uma palavra muito usada em medicina e cirurgia, em grego é ferida e deriva da palavra furar. Já o traumatismo são as consequências no organismo de lesões decorrentes de uma violência externa. Freud transpõe esse uso na sua obra como trauma psíquico: choque violento, ruptura e a consequências sobre a pessoa. Se bem o trauma psíquico é pensado pela Psicanálise no singular de cada pessoa, pode se pensar no trauma familiar, no trauma de uma cidade, um povo. O trauma psíquico revela de forma simultânea tanto um perigo externo de onde vem o ataque como um perigo interno, pois o EU é atacado não só de fora, mas também de dentro, pelas excitações pulsionais, pois cada um reage de acordo com sua realidade psíquica. Os traumas, a situação traumática, foram estudados sempre por Freud desde o início de sua obra, passando pelos traumas sexuais infantis, depois pelos traumas da guerra (Primeira Guerra Mundial), e por fim no Mal Estar na Cultura.

O choque de realidade

Nos dias que se seguiram ao dia sete de outubro todos se perguntavam como foi possível o ataque com 1400 vítimas, com mulheres estupradas, tratadas com crueldade perversa e mais de duzentos sequestrados. E, aos poucos, foi ocorrendo uma onda antissemita à medida que a guerra começou e a crueldade explodiu como ocorrem nas guerras. Milhares de crianças e mulheres palestinas mortas, uma grande tragédia que se soma ao dia sete outubro. Ademais Israel e o mundo se chocaram com a facilidade dos ataques do Hamas aos kibutzim, cidades no sul. Onde esteve o Mossad, o famoso serviço secreto? Como levou tanto tempo para as Forças Armadas reagirem? Duas perguntas que deram um choque de realidade quanto à vulnerabilidade de Israel, do Povo Judeu. Também produto do abandono da busca da paz por parte do governo neste século XXI.

A marca trágica do Povo Judeu

O peso de dias sagrados como Yom Kipur, Tishá B’Av, a tristeza da destruição dos Templos, a expulsão dos judeus de Israel em 135, as Cruzadas, a longa Inquisição, a Idade Moderna. São séculos e séculos de perseguição aos judeus que diminui após o Iluminismo até explodir no final do século XIX com o caso Dreyfus que sacudiu a Europa. Já no começo do século XX o antissemitismo na Europa seguiu um caminho crescente de ódio até o nazismo como se pode ler em Alemanha Nazista e os Judeus de Saul Friedlander. Nele o conhecido historiador escreve sobre o Antissemitismo Redentor. Como o tema dessa sicha é sobre o Povo Judeu convém seguir perguntando.

O que somos nós judeus?

Porque nossa histórica é trágica e persiste o antissemitismo? Muitas respostas são perguntas já feitas e respondidas, mas sempre voltam. Em síntese: as nações sentem em relação aos judeus a mesma animosidade que a farinha deve sentir em relação ao fermento que a impede de descansar escreveu o filósofo E.M. Cioran. Citado por Zygmunt Bauman em seu livro Vidas em fragmentos- sobre a ética pós-moderna. Algo semelhante escreveu George Steiner famoso professor de literatura comparada. No livro Errata: revisões de uma vida escreveu que o monoteísmo ético judeus exige uma transformação do homem, da sociedade. Depois desse primeiro momento Steiner faz referência ao judeu Jesus Cristo no seu Sermão da Montanha ao exigir o altruísmo, a pregação do amor incondicional. A terceira seria o socialismo utópico na sua vertente marxista. O nazismo definiu os judeus como luftmensch, criaturas do ar, sem raízes logo deveriam ser transformados em cinzas. Fatores sociais, invejas econômicas, busca do bode expiatório, persistência da alteridade. Conclui que não é como assassino, mas como criador de um Deus invisível que os judeus não têm perdão.

Sobre a crueldade

Após o sete de outubro escrevi “Sobre a crueldade”, discorrendo o quanto a crueldade era humana e o quanto é surpreendente. Crueldade do Hamas por um lado e pelo outro me referi aos bombardeios israelis que começavam. Quando o Presidente Lula comparou Adolf Hitler e o nazismo com o que ocorria em Gaza, pedi a um amigo que vive há meio século em Israel, Doutor em História- Avraham Milgram- para escrever. Título do ensaio: Lula colocou as mãos num cabo de alta tensão. No último parágrafo escreveu sobre a crueldade de Netanyahu: “Com grande pesar ouso afirmar que o desempenho de Benjamin Netanyahu desde janeiro de 2023 é inúmeras vezes mais prejudicial a Israel e a sua sociedade que as declarações de Lula. Não fosse Bibi judeu, diria que é um dos maiores antissemitas da nossa época”.

Humor na Shoah

Escrevo quando a guerra em Gaza ainda não terminou e Israel prepara a invasão de Rafah. Busco não me deixar dominar pelo ceticismo em dias tristonhos para nós e a humanidade. Logo me ocorre uma última questão: O que de todo o Judaísmo, de toda história do Povo Judeu pode ser um dos caminhos para enfrentar os traumas da tragédia judaica? Um caminho difícil no momento pode passar por uma tradição judaica construída no meio da tragédia. Lembro do humor judaico de Scholem Aleichem e Woody Allen, mais recente, mas também o livro dos Provérbios, livro da sabedoria, atribuído ao Rei Salomão: Em 12, 25: “a melancolia no coração do homem o abaterá e com boas palavras se alegrará”. Ou no 16,22: O ânimo alegre faz idade florida; o espírito triste seca os ossos.

Um dos temas mais difíceis que estudei foi o humor na Shoah. Os judeus fizeram humor nos campos de concentração e de extermínio e as histórias desses tempos sombrios integram o livro Humor é coisa séria. Ora ficava triste, ora orgulhoso dessa capacidade judaica. Já vivemos muitas tragédias em quatro mil anos de história, sabemos pouco das vidas de muitos milhões de mortos ocorridas ao longo dos tempos. Agora os israelis, judeus como nós, também estão matando, e essa também é uma tragédia, pois a guerra permanente é destrutiva. Não há vida sem a busca de paz, é uma busca ordenada pelos Profetas há quase três mil anos. Estamos passando por um péssimo tempo, nada comparado aos nossos ancestrais do século XX. Não sei, apesar e tudo, mantenho a fé em dias melhores, somos o povo do Princípio Esperança. HATIKVA é esperança, nosso hino!

P.S. Recebi a orientação de escrever no máximo 5.000 caracteres, mas o texto tem uns 8000. Essa rebeldia tem suas raízes na história. Slicha.

Ami Dror

“As IDF derrotarão o Hamas e nós os derrotaremos. Derrotaremos o governo da destruição. Retornaremos os reféns. Expulsaremos os racistas. Expulsaremos os racistas. Voltaremos e derrotaremos o inimigo, e começa aqui e agora. Eleições agora!”

Ami Dror é um ex-alto oficial de segurança que atuou com, entre outros, líderes israelenses como Shimon Peres, Ehud Barak e Benjamin Netanyahu. Ele entrou no círculo de liderança dos protestos contra a Reforma do Judiciário com um histórico empresarial impressionante, que se concentrou em aprendizado online e educação tecnológica na Ásia e na África.

Ele é uma das principais figuras na organização dos protestos e na distribuição de informações em tempo real.

Crédito: Efrat Safran & Unexptable

Mais informações

Abrão Slavutzky, psicanalista e escritor brasileiro, é um dos principais estudiosos dos traumas psíquicos do povo judeu. Em seus livros e artigos, ele explora como eventos históricos como o Holocausto, a perseguição e o exílio impactaram a psique judaica, tanto em nível individual quanto coletivo.

Traumas Transgeracionais:

  • Transmissão de traumas: Slavutzky argumenta que os traumas sofridos por uma geração podem ser transmitidos para as seguintes, através de mecanismos como a memória implícita e a epigenética.
  • Efeitos na psique: Essa transmissão pode levar a diversos problemas psicológicos, como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e sentimento de culpa.

Mecanismos de Defesa:

  • Negação e recalque: Para lidar com os traumas, muitos judeus utilizam mecanismos de defesa como a negação e o recalque, o que pode dificultar o processo de cura.
  • Resiliência e superação: Apesar dos traumas, o povo judeu também demonstra uma grande capacidade de resiliência e superação.

Importância da Memória:

  • Lembrar e trabalhar o trauma: Slavutzky enfatiza a importância de lembrar e trabalhar o trauma para que ele não seja transmitido para as próximas gerações.
  • Combate ao antissemitismo: A memória dos traumas também é fundamental para combater o antissemitismo e outras formas de intolerância.

Obras de Abrão Slavutzky:

  • A Dor de Ser Judeu: Um clássico da literatura judaica brasileira, este livro explora os traumas do Holocausto e da perseguição.
  • Traumas Psíquicos do Povo Judeu: Uma análise profunda dos traumas que marcaram a história do povo judeu e seus efeitos na psique.
  • A Transmissão Psíquica dos Traumas: Este livro explora como os traumas podem ser transmitidos de geração em geração.

Conclusão:

Os estudos de Abrão Slavutzky oferecem uma importante contribuição para a compreensão dos traumas psíquicos do povo judeu. Ao abordar esse tema de forma sensível e profunda, ele ajuda a promover a cura e a superação, além de contribuir para o combate ao antissemitismo e à intolerância.

Recursos Adicionais:

Observação:

  • Este resumo é baseado em informações disponíveis publicamente e não deve ser interpretado como uma consulta terapêutica ou psicológica.
  • Para informações mais específicas e personalizadas, consulte um profissional de saúde mental especializado em traumas.
Abrão Slavutzky
Abrão Slavutzky

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